-Você quer sentar no meu colo? convida Walter angustiado.
-Você quer que eu sente no seu colo? indaga Robin.
-Sim.
Longa pausa.
-Meu pai também pede para eu sentar no colo dele. Robin continua entristecendo.
-Você gosta? Walter mudando de expressão Quando ele pede isso vocês estão sozinhos? Ele mexe as pernas de um jeito estranho?
Lágrimas no rosto da pequena Robin.
Hoje foi dia de sessão dupla. Entrar numa sala e sair direto pra outra. Os filmes: O Lenhador (The Woodsman) de Nicole Kassell e Eterno Amor (Um long dimanche de fiançailles) de Jean-Pierre Jeunet. Fechei a noite com uma grande surpresa: gostei muito mais do primeiro. Supresa porque pensei que a dupla Jeunet-Tautou pudesse fazer um filme melhor que Amélie Poulain. Bobinho. Não que Eterno Amor seja ruim, pelo contrário, é muito bonito, fotografia comovente e bons atores, principalmente a Audrey, mas tinha um resquício muito grande do Amélie Poulain, mesmos truques de roteiro que da primeira vez são lindos, mas da segunda são os-mesmos-da-outra-vez. Além de um enredo desnecessariamente complicado. Paro por aqui para entrar no mundo obscuro de O Lenhador.
A cena de quando ele se imagina, na porta da escola primária, apanhando uma bola vermelha que supostamente escapou de uma brincadeira de meninas, é a melhor imagem do estado mental de Walter (Kevin Bacon) após o período de penitenciária. Condenado a 12 anos por abusar de duas meninas, ele retorna, em condicional, à sociedade, e se depara com todos os tipos de julgamentos sobre seus atos. O interessante do filme é que este é o primeiro a falar de pedofilia pelo olhar do próprio pedófilo. Um olhar, conseqüentemente, mais humano. Um olhar que deixa transparecer toda a fragilidade de uma criatura em conflitos incessantes dentro de si. E uma questão é levantada logo do cartaz: Qual foi a pior coisa que você já fez?. E é a mesma pergunta que Walter faz à sua nova namorada quando indagado por ela o motivo de sua estada na prisão. Ela: Transei com o marido da minha melhor amiga. Não me choco facilmente. Fui abusada por meus três irmãos. Todos somos diferentes, pensamos coisas diversas, temos desejos escondidos que deixamos nos deleitar neles algumas vezes, outras escondemos no mais fundo e obscuro canto de nós mesmos. Mas esse é o maior problema. Quando algo nos atormenta, não podemos vestir a máscara da hipocrisia, negligenciando a nós mesmos, e fingir que nada acontece, fingir que somos normais. Mas o que é ser normal? Walter diz, respondendo ao seu terapeuta, que ser normal é conversar com uma menina, sem sentir atração. Mas nem todos nós temos essa dificuldade. Temos outras. Normalidade tem seu conceito diferenciado para cada pessoa. Esse é o ponto principal da oportunidade de convivência. Por isso não podemos esquecer nossos medos e anseios. Temos de aceitá-los, aceitar a nós mesmo como somos. Só assim aprenderemos a conviver com eles, descobriremos sua origem e respeitaremos a todos como são. Julgamos muito as pessoas, esquecendo que somos alvos em potencial de julgamento também. O próprio Walter é a maior prova disso. Ao descobrir que um cara, das redondezas, anda rondando a escola oferecendo doces e caronas a garotinhos, ele próprio faz o papel do lenhador que, nas historinhas, salvou Chapeuzinho Vermelho da barriga do Lobo Mau e dá uma bela surra no estuprador. Mas, e ele? Agiu certo? Não, deveria tê-lo entrega à polícia, ou simplesmente ter evitado que o homem seqüestrasse o menino. Mas ao invés disso ele bate, socos e mais socos, e se vê na pele do próprio homem. Tenta dilacerar tudo que o incomoda, destruir seus sentimentos negros. Mas o faz de um jeito errado. Essa catarse emocional de nada adianta para o seu melhoramento. Primeiro ele tem que se aceitar como é, depois ir trabalhando conflito por conflito. Para que um dia também tenha uma família, e não faça igual ao pai de Robin, e igual a vários pais que também se escondem atrás de um perfil, despejando seus desejos profundo em pessoas que nem podem se defender.
O Lenhador incomoda porque nos vemos de ambos os lados. Porque vemos o monstro da história como um de nós. Vemos Walter, não se deliciando, mas se culpando pelo que faz. Tentando esconder essa culpa. Se enganando, pensando que são as crianças que vão até ele, e, assim, não podendo resistir as seduz, como na imagem da bola vermelha. Temos que aproveitar a oportunidade da convivência para aprendermos conosco mesmos. Para vivermos em paz conosco mesmos. Em paz com as nossas esquisitices.
Kevin Bacon está melhor do que nunca. Nos faz esquecer, definitivamente, do karma de Footlose. O filme é incômodo, sim, mas tem belas cenas. Destaque para a cena do parque com a menina Robin. Assistam... livres de qualquer culpa (se puderem).
Para acompanhar: Veludo Azul (Blue Velvet) de David Lynch.
On March 04 2005
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