Adormecido sob a natureza
Gabriel Silveira
Quando a face derramante do céu anil em harmonia inundou-me o palavreado, eu já estava dormindo. O etéreo mundo em que adentrava, ainda maculado pela razão que é inútil em tais campos, prostrava-se mais leve do que a mais leve brisa mas ainda mais arrebatador do que o mais arrebatador vendaval. Meus olhos padeciam em curiosidade. Procuravam ninfas envaidecidas que mostravam-se à luz amarelada para depois esconder-se nas escuridões adocicadas dos infinitos subterfúgios. A mata viva, irônica em magnificência, dominava meus sentidos. Minhas mãos sentiam o cheiro úmido das lágrimas verdes que brotavam por toda a parte: era a própria natureza que derramava seu pranto emocionada com o espetáculo que ela própria proporcionada. Auto-suficiência. Aos poucos meus braços puseram-se a dançar independentes. Meus dedos cantarolavam ritmos esquecidos da alma e minhas pernas levitavam em pequenos pulos vagarosos de alegria. Fiz-me servo dos encantos. Os vagalumes de inúmeras cores, forças, virtudes, intercalavam encantos de purificação. Purgantes da alma. Levaram-me naquele sobrevôo reconfortante, deslizaram-me sobre os campos da falange mestra e adentrei como alma leve uma pequena clareira vazia de brotos mas repleta de espíritos livres da natureza. Soltaram-me ao léu e cai como uma pluma à terra cinza e flutuante. De dentro de um tronco largo, fossilizado pela sabedoria, uma voz incitava-me: "Contempla-me... vem... contempla-me... vem.... não tenhas medo... contempla-me...". Eu, movido pelo pensamento, sem mexer um só dedo, sem remexer uma só ânsia, vi-me à entrada do negro mundo, cheio de luzes verdes e coriscos azulados que exalavam um perfume sabor de kiwi. Senti-o em toda sua pureza. E, adentrando, voltei para nunca mais ser o mesmo

On March 29 2004 Edit






mingo

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