Sobre descrições e a terrível idéia da felicidade
A descrição das coisas, ou apenas a sua discrição? Somente os discretos sabem ser felizes, por não precisarem ser descritos, mas apenas escritos por si, nunca por outros.
Sobre a parte que me toca,não preciso dizer nada. Absolutamente.
Sobre a atmosfera líquida, porém por vezes ríspida em seu toque; o redor que desmorona em mim sem que ninguém note; por todas as pedras que jogo a distâncias curtas querendo afastá-las, mesmo não tendo forças para me livrar delas; os caminhos que se mostram e se escondem por entre as névoas do discurso dos não tão discretos mas menos descritíveis amigos - conhecidos e outros dessa vida que me passa por acaso - também não digo. Não por falta de necessidade, mas de repente por desapego aos meios que me restam para demonstrar qualquer coisa.
Pelo dilúvio de cheiros e gostos eu simplesmente perpasso, como se andasse sobre água ou fosse fora do plano, fora da realidade não transversal em que todos vivem. Abdico do direito de olhar nos olhos de quem diz, para viver de olhar os olhos de quem apenas fala. Observo mas não expresso. Vejo, toco e degusto, mas não vomito. Guardo porque hei de não dar o braço a torcer. Se o mundo me priva de si, eu o privo de mim, em toda a grandeza do Meu Universo.
E vivo bem com essa falta de meios, simplesmente porque nunca tive mundo com excesso deles para comparar. Acho que essa é uma forma de não enlouquecer, endoidecer, mudar de idéia muitas vezes por minuto; me encolher e voltar para o lugar de onde vim, nas profundezas de um útero em que prevalece apenas uma cor, um gosto e uma escolha.
Coloco sim meu código, mas também entro no sistema de cabeça e entrando no seu jogo não revelo a lógica das minhas senhas. Vou falar e ninguém vai me entender, como vingança àqueles que tanto disseram sem me dizer porque diziam, nem me falar o que falavam, apenas usavam seus códigos e apreciavam o gosto de saber o que ninguém neste mundo de sete bilhões de pessoas sabe. Ou apenas para que alguma coisa faça sentido.
Viva o pódio dos não compreendidos incompreensíveis, dos inteligentíssimos ininteligíveis! E o cinismo de todos os críticos há de prevalecer sobre qualquer tipo de freqüência estranhamente inteligível mesmo que completamente nova.
Viva o trans, o travestir - o transvestir, o transfuncionar, o transviver! O fazer parte de tudo; o não escolher; o trono na torre mais alta que pudermos criar com a nanotecnologia que recentemente nos deu o ar de sua graça.
Chego em casa e como chocolate e faço sexo até me convencer de minha própria grandiosa felicidade. Eles me entendem! O sexo e o chocolate me entendem e para sempre serei feliz. No final os guardarão na minha lápide de marfim, representado o meu eterno legado empedrado, incrustado e, por favor!, intocado.
Não, meu bem, não quero que você concorde comigo! Por favor, me negue, me chame de burro, retrógrado e não se esqueça, querida, do in-co-e-ren-te. O mundo gira rápido demais se alguém me entende, estou perdido! Me afunde no espaço, mas como recompensa me venere no tempo. Sou palpável, palatável e completamente vapor! Sou incongruente, intangenciável, desretado, aquadrático, mas sempre racionalíssimo e eternamente incalculável.
Não ache o resultado! Quebre essa calculadora de criptonita! O código é meu, meu, meu, meu!
Com quem eu estou falando mesmo?
Ah, sim... Sexo e chocolate.
A diferença entre viver como se sonhasse e de sonhar como se vivesse é quase que ínfima; e isso me faz achar que é realmente possível trazer a si nuvens e espaço a vazios táteis.
Não ser tudo e incapacitada pelo duro cárcere da física, a pedra instransponível da impossibilidade técnica, é realmente um soco no estômago, um frio na barriga da alma - medo terrível; riso frio de si mesmo. Pobrezinho, ele transborda, ele está furado e pelas frestas vazam todos os sonhos não realizados e... tão puros! Desespero! Ai, meu Deus, por que não realmente me fizeste à Tua imagem e semelhança? Por que a mente não cabe no corpo e sofre de dores tão intensas ao resvalar o áspero dos ossos que a guardam, prendem, humilham e torturam... É como colocar em volta do copo dágua do morto de sede lodo, é dar carne crua a um faminto desdentado, é pior do que cortar os pulsos e ver a própria imagem sumir no espelho.
É torturante. Quando eu digo que tenho medo de ser feliz... É a mais pura verdade!
E todos temos, senão seríamos muito mais fáceis, chatos e até talvez apáticos do que de fato somos.
On August 31 2008
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