Para meu amor, LEO !
Muita saudade de vc...

Segunda Carta a Clara

Meu amor.

Ainda há poucos instantes (dez instantes, dez minutos, que tanto gastei num desolador
desde a nossa Torre de Marfim), eu sentia o rumor do teu coração junto ao meu, sem que
nada os separasse senão uma pouca de argila mortal, em ti tão bela, em mim tão rude – e já estou tentando reconfigura ansiosamente, por meio deste papel inerte, esse inefável estar contigo que é hoje todo o fim da minha vida, a minha suprema e única vida. É que , longe da tua presença, cesso de viver, as coisas para mim cessam de ser – e fico como um morto jazendo no meio de um mundo morto, Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto momento de vida que me dás, só com pousar junto de mim e murmurar o meu nome – recomeço a aspirar desesperadamente para ti, como uma ressurreição!
Antes de te amar, antes de receber das mãos de meu deus a minha Eva – que era eu, na
verdade? Uma sombra flutuando entre sombras. Mas tu vieste, doce adorada, para me fazer
sentir a minha realidade, e me permitir que eu bradasse também triunfalmente o meu –
"Amo, logo existo!"
...
E a criatura incomparável do meu cismar, a Vênus Espiritual, Citeréia e Dolorosa, não existia, nunca
existiria!... E quando eu assim pensava, eis que tu surges, e eu te compreendo! Eras a
encarnação do meu sonho, ou antes de um sonho que deve ser universal – mas só eu te
descobri, ou, tão feliz fui, que só por mim quiseste ser descoberta!
Vê, pois, se jamais te deixarei escapar dos meus braços! Por isso mesmo és a minha
Divindade – para sempre e irremediavelmente estás presa dentro da minha adoração.
...
O que eu desejaria na verdade é que fosses invisível para todos e como não existente – que perpetuamente um estofo informe escondesse o teu corpo, uma rígida mudez ocultasse a tua inteligência. Assim passarias no mundo como uma aparência incompreendida. E só para mim, de dentro do invólucro escuro, se revelaria a tua perfeição rutilante. Vê quanto te amo – que e queria entrouxada num rude, vago vestido de merino, com um ar quedo, inanimado... Perderia assim o triunfal
contentamento de ver resplandecer entre a multidão maravilhada aquela que em segredo
nos ama. Todos murmurariam compassivamente: "Pobre criatura!" E só eu saberia, da
"pobre criatura", o corpo e a alma adoráveis!
...
Por isso há em mim um incessante desespero de não saber amar condignamente – ou antes (pois desceste de um Céu superior) de não saber tratar, como ela merece, a hóspede divina do meu coração. Desejaria, por vezes, envolver-te toda numa felicidade imaterial, seráfica, calma infinitamente como deve ser a Bem- Aventurança – e assim deslizarmos enlaçados através do silêncio e da luz, muito brandamente, num sonho cheio de certeza, saindo da vida à mesma hora e indo continuar
no Além o mesmo sonho extático. E outras vezes desejaria arrebatar-te numa felicidade
veemente, tumultuosa, fulgurante, toda de chama, de tal sorte que nela nos destruíssemos
sublimemente, e de nós só restasse uma pouca de cinza sem memória e sem nome!
...
Mas de nenhum destes modos te sei amar, tão fraco ou inábil é o meu coração, de modo que por o meu amor não ser perfeito, tenho de me contentar que seja eterno. Tu sorris tristemente desta Eternidade. Ainda ontem me perguntavas: "No calendário do seu coração, quantos dias dura a Eternidade? " Mas considera que eu era um morto – e que tu me ressuscitaste. O sangue novo que me circula nas veias, o espírito novo que em mim sente e compreende, são o meu amor por ti – e se ele me fugisse, eu teria outra vez, regelado e mudo, de reentrar no meu sepulcro. Só posso deixar de te amar – quando deixar de ser. E a vida contigo, e por ti, é tão inexprimivelmente bela! É a vida de um deus. Melhor talvez: - se eu fosse esse pagão que tu afirmas que sou, mas um pagão do Lácio, pastor de gados, crente ainda em Júpiter e Apolo, a cada instante temeria que um desses deuses invejosos te raptasse, te elevasse ao Olimpo para completar a sua ventura divina. Assim não receio – toda minha te sei para todo o sempre, olho o mundo em torno de nós como um paraíso para nós criado, e durmo seguro sobre o teu peito na plenitude da glória, oh minha três vezes bendita, Rainha da minha graça.
Não penses que estou compondo cânticos em teu louvor. É em plena simplicidade que deixo escapar o que me está borbulhando na alma... Ao contrário! Toda a Poesia de todas as idades, na sua
gracilidade ou na sua majestade, seria impotente para exprimir o meu êxtase.
Balbucio, como posso, a minha infinita oração. E nesta desoladora insuficiência do verbo
humano, é como o mais inculto e o mais iletrado que ajoelho ante ti, e levanto as mãos, e te
asseguro a única verdade, melhor que todas as verdades – que te amo, e te amo, e te amo, e
te amo!...
Fradique

On February 28 2007 Edit







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