Raramente um álbum consegue definir tão bem seu conteúdo, logo pelo título, como acontece com este lançamento do Hateen. Loved, o terceiro disco do grupo, é o relato de alguém que sofre com os enigmas, impasses e infortúnios do amor, sejam eles de um compromisso longínquo e ainda existente, de uma paixão não-correspondida ou simplesmente uma relação romântica, conhecida erradamente como “platônica”.

Para quem ainda não ouviu falar, o quarteto paulista está ativo no underground brasileiro desde 1994 e, este seu terceiro álbum de estúdio, lançado recentemente, une a força da revolta punk adolescente contida em Hydrofobia, de 1996, e a lamentação melódica e trabalhada de Dear Life, disco que os transformou na principal banda de rock emo do país, no ano 2000. Este rótulo, contendo as sílabas inicias da palavra “emotion”, é atribuído às bandas que mesclam linhas vocais melancólicas e letras sobre relacionamentos com a simplicidade e as distorções de guitarra. Em breve, um especial da coluna sobre o tema aprofundará o leitor nesse nicho musical cada vez mais em evidência.

A arte do disco, influenciada por quadrinhos, é mais uma prova da evolução gráfica dos lançamentos independentes. A única ressalva fica por conta da foto da banda contida no encarte – ruim, não se encaixa no perfil dos desenhos e é confusa devido às substituições de seus integrantes no final das gravações. Mas aí você aperta play e o barulho grudento agrada. A música fica na cabeça e você quer ouvir de novo. É acessível e juvenil? Compre pro seu sobrinho de 16 anos e escute quando ele for pro colégio.

Tivemos uma conversa rápida com Rodrigo Koala, um dos fundadores da banda, sobre Loved, a sobrevivência no underground e os planos de lançar um DVD.

Quem pegar o disco novo na mão deve esperar o quê na hora de apertar o play?

Definir o som e as letras do Loved é dificil, pois não sei lidar muito bem com sentimentos e o disco é basicamente sobre isso. Eu poderia inventar uma resposta que soasse mais poética e romântica, mas acho que não seria verdadeira. Na verdade o Loved, para nós, é a continuidade exata do nosso trabalho e reflete o momento que vivemos hoje.

As letras e músicas são creditadas a todo o grupo. Como funciona o processo de composição?

Na verdade, eu faço cerca de 80% das letras. No Loved tem uma música do Japinha (CPM 22), "Give me a Call", e duas do Dé, "Blind For You" e "I don't Wanna Hear". Mesmo assim, sempre mudamos uma letra, uma nota, e todos opinam em tudo. Eu costumo levar as letras no ensaio e fazemos tudo na hora, funcionamos melhor fazendo tudo juntos. Muito raramente eu levo alguma coisa prontinha, acabada.

As "presepadas" do líder do Lemonheads, Evan Dando, ficaram muito famosas em sua passagem pelo Brasil. Como foi o show do Hateen com eles em Taubaté? Tudo correu normalmente? Alguma história bizarra?

Eu sou um grande fã de Lemonheads. Fiquei triste de ver o cara naquelas condições. É deprimente o que os excessos podem causar a uma pessoa. Bizarro, que eu lembre, foi ver um ídolo que eu admiro muito esquecendo uma nota, ou simplesmente uma música inteira. Ele teve a sorte de estar acompanhado de ótimos e pacientes músicos. Eu teria deixado o cara sozinho e voltado pra casa, ou melhor, nem teria vindo. A coisa tava feia.

Conta mais sobre a gravação do DVD do Hateen. Como foi o show? Vocês pensam em colocar extras?

Tudo surgiu da idéia de um amigo, que hoje tenho certeza, é o quinto membro da banda. O nome dele é Manoo. Ele fez toda correria sozinho e nós apenas nos preparamos e ajudamos no que podíamos. O DVD deve sair no final do ano e com certeza terá muito material extra.

O que vocês têm ouvido ultimamente? Que grupos recomendam pra quem ainda não entendeu direito que raios é essa denominação "emo"? Algum brasileiro nessa lista?

Sou completamente viciado em música. Descobri recentemente que tenho uma compulsão por ouvir coisas diferentes. A gente percebe que tem algum problema quando grava 80 CDs em uma semana. Eu recomedaria o álbum novo do John Frusciante, e as bandas The Mars Volta, Sparta, Explosions in the Sky, Mission of Burma, Emery, actionslacks, o split de Joey Cape e Tony Sly, além das duas trilhas sonoras do filme Kill Bill. Existem os clássicos de sempre também, né? Gosto muito de Pixies, Dinosaur Jr., Elvis, Placebo. Das nacionais, Garage Fuzz, Againe, CPM22, Street Bulldogs, Dead Fish, Hurtmold, Van Damien, Forgotten Boys, Borderlinerz, Still Sad...

É possível comprar os CDs do Hateen pelo próprio site da banda, www.hateen.com.br, ou na Galeria do Rock, na rua 24 de maio, no centro de São Paulo.


On August 05 2006 Edit






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